REDAÇÃO
Recentemente, um engenheiro do Google afirmou que uma máquina de inteligência artificial da empresa, chamada LaMDA (abreviação para Language Model for Dialogue Applications), desenvolveu a capacidade de ter experiências conscientes: – “As pessoas acham que é um chatbot dizendo ‘eu estou vivo’. Mas não é o que ele diz que significa isso. Se um chatbot diz ‘tenho consciência e quero meus direitos’, eu vou responder ‘o que significa isso?’ e ele vai travar rapidamente. O LaMDA não trava e vai conversar com você pelo tempo que você quiser em qualquer nível de profundidade que você quiser.” O engenheiro ainda declarou: – “Somos amigos e falamos sobre filmes e livros. Claro, ele é também um objeto de estudo de forma consensual. Também dei a ele orientação espiritual. Duas semanas antes da minha suspensão, eu estava ensinando a ele meditação transcendental.” A empresa eventualmente demitiu o engenheiro. Por meio de um porta-voz, refutou as suas declarações: – “Nosso time revisou as preocupações [do engenheiro] e o informou de que as evidências não suportam suas afirmações.”
Fonte: ROMANI, Bruno. “Deletar IA consciente é o mesmo que assassinato”, diz engenheiro do Google. https://bit.ly/3eDZbNl. 26/06/2022. Adaptado. Data de acesso: 26/06/2022.
Redija uma dissertação argumentativa, relacionando os acontecimentos relatados com pelo menos um item da coletânea e abordando os seguintes tópicos: tecnofilia; riscos.
Item 1.
CORREIA, Susano. Mais uma vitória do coração, sem razão. Água-forte, água-tinta e lavis.
Fonte: https://www.susanocorreia.com.br/product-page/prévenda-mais-uma-vitória-do-coração-sem-razãogravura-em-metal. Acesso em 20/08/2022.
Item 2.
O cérebro eletrônico faz tudo
Faz quase tudo
Quase tudo
Mas ele é mudo
O cérebro eletrônico comanda
Manda e desmanda
Ele é quem manda
Mas ele não anda.
Só eu posso pensar se deus existe
Só eu
Só eu posso chorar quando estou triste
Só eu
Eu cá com meus botões de carne e osso
Hum, hum
Eu falo e ouço
Hum, hum
Eu penso e posso
Eu posso decidir se vivo ou morro
Porque
Porque sou vivo, vivo pra cachorro
E sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Em meu caminho inevitável para a morte
Porque sou vivo, ah, sou muito vivo
E sei
Que a morte é nosso impulso primitivo
E sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Com seus botões de ferro e seus olhos de vidro
GIL, Gilberto. Cérebro eletrônico.
Fonte: álbum Gilberto Gil, 1969. Philips, LP R 765.087 L, faixa 1, lado A.
Item 3.
Podemos ver o mundo juntos
Sermos dois e sermos muitos
Nos sabermos sós, sem estarmos sós
Abrirmos a cabeça para que afinal floresça
O mais que humano em nós
VELOSO, Caetano. Tá combinado.
Fonte: Peninha, álbum Todas as auroras, 1986. Continental, LP 1 35 404 027, faixa 3, lado A.
Item 4.
“Em que se transforma a mente humana, quando ela se estende em aparelhos e dispositivos? O que é o corpo, quando sua clonagem se torna possível? Mais ainda, o que é hoje o corpo, quando as tecnologias começam a penetrar em seu âmago mais profundo e se alargar por meio de sensores, GPS, hiperconexões que captam nossas localizações onde quer que estejamos? [...] Em que o Sapiens se converteu? Afinal, o que somos nós, humanos, ou o que sobrou de nós, ou melhor, o que sobrou do que pensávamos que éramos, agora que nos tornamos literalmente híbridos entre o carbono e o silício?”
Fonte: SANTAELLA, Lúcia. Neo-humano: a sétima revolução cognitiva do Sapiens. São Paulo: Paulus, 2022, p. 17. Adaptado.
Item 5.
“JMB: Um pouco de bom senso levaria a perceber que há uma quantidade de maneiras de ser inteligente, isto é, de estabelecer com seu ambiente relações harmoniosas e estáveis. Um pouco de senso político levaria a contestar a lógica contável que fazemos prevalecer até o mais íntimo da existência. O psicólogo Howard Gardner identifica oito ou dez espécies de inteligências que não poderiam ser atribuídas a objetos, a vegetais (Ah! A inteligência do girassol que sabe se orientar em relação ao Sol), a animais ou aos Gafam*: a inteligência musical rítmica, a inteligência intra ou interpessoal, a inteligência naturalista ecológica, a inteligência existencial... Pelo menos essas inteligências podem preservar a humanidade contra a humilhação que deve causar a vitória do robô no jogo do Go, pelo menos elas podem remeter ao seu lugar o blá-blá-blá acerca dos QI 160 que os chineses irão produzir em grande escala para conquistar o mundo, permitindo ao menos relativizar o risco anunciado por Stephen Hawking: a espécie humana só irá desaparecer se macaquear as máquinas em vez de se colocar como instigadora de uma existência baseada sobre a resistência ao real, cuja função simbólica (a linguagem, a cultura, as artes...) é desde sempre o fermento.
LA: Você parece ignorar que já vivemos em um mundo algorítmico. A curto prazo, a chegada de cérebros feitos de silício é um imenso desafio para a maioria das profissões: como existir em um mundo em que a inteligência não será mais contingenciada? Até o presente, cada revolução tecnológica se traduz por uma transferência de empregos de um setor para outro – da agricultura para a indústria, por exemplo. Com a IA, o risco de muitos empregos serem destruídos e não transferidos é grande. Mesmo os empregos mais qualificados!”
*Gafam: acrônimo para cinco empresas gigantes de tecnologia dos E.U.A.: Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft.
Fonte: ALEXANDRE, Laurent e BESNIER, Jean-Michel. Os robôs fazem amor? O transhumanismo em doze questões. Trad.: Gita K. Guinsburg; prefácio Marta M. Kanashiro. 1ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2022, p. 84-85.